Journal De Bruxelles - Le Pen aposta em discurso de ordem em meio à onda de violência na França

Le Pen aposta em discurso de ordem em meio à onda de violência na França
Le Pen aposta em discurso de ordem em meio à onda de violência na França / foto: NICOLAS TUCAT - AFP

Le Pen aposta em discurso de ordem em meio à onda de violência na França

Em um discurso de tom presidencial sobre os confrontos, a pré-candidata à presidência e líder de extrema direita da França Marine Le Pen aparece em seu escritório, sentada diante de uma bandeira francesa e de sua antiga toga de advogada.

Tamanho do texto:

Em um vídeo publicado nas redes sociais no domingo (18), a política, de 58 anos, denuncia a "impotência" do governo do presidente Emmanuel Macron e acusa o partido de esquerda radical A França Insubmissa (LFI), de seu adversário Jean-Luc Mélenchon, de querer provocar uma "guerra civil".

"Vivemos uma profunda crise de confiança, de autoridade, que representa uma ameaça à democracia", lamenta Le Pen.

A França viveu no fim de semana um dos piores episódios de violência nas ruas dos últimos anos, em meio a grandes manifestações contra o aumento do custo de vida, a apenas seis meses da eleição do sucessor de Macron.

Le Pen, que lidera as pesquisas, busca se apresentar nesse contexto como a candidata da ordem, após se esforçar para afastar a imagem radical que seu pai, Jean-Marie Le Pen, deixou para o partido Frente Nacional, rebatizado como Reagrupamento Nacional (RN).

Seu aliado e presidente do RN, Jordan Bardella, adotou o mesmo estilo solene um dia depois. Apontado como futuro primeiro-ministro caso Le Pen vença a eleição presidencial, o político aparece de pé, atrás de um púlpito com o lema: "Diante do caos, a França em ordem".

As redes sociais do partido de extrema direita repetiram o lema ao longo do fim de semana, enquanto imagens de saques, incêndios em prédios públicos e confrontos com a polícia dominavam os canais de televisão.

De olho na eleição presidencial, Bardella prometeu na segunda-feira (19) "restabelecer a segurança e a ordem por todos os meios legais possíveis" caso seu partido chegue ao poder, e acrescentou, em tom enérgico: "Quem encostar em um policial dorme na prisão".

E, como se a mensagem ainda não estivesse suficientemente clara, o presidente do RN afirmou pouco depois que "a melhor maneira de protestar é votar". Um claro convite ao voto de protesto daqueles que não vão às ruas.

Os adversários de Le Pen, como o candidato social-democrata à Presidência Raphaël Glucksmann, temem que a líder de extrema direita acabe se beneficiando eleitoralmente do "caos".

- "Pura lógica" -

O Reagrupamento Nacional nega querer tirar proveito dos confrontos: "Não podemos ficar felizes ao ver o país nesse estado. Quando se é patriota, isso dói", comenta um dirigente do partido, consternado com as imagens de uma França em chamas que circulam pelo mundo.

O cientista político Bruno Cautrès adota uma postura cautelosa em relação às consequências eleitorais da violência dos últimos dias.

"No curto prazo, tudo isso favorece os políticos que falam sobre lei e ordem, segurança", explica à AFP, mas ressalta que isso não vai "se traduzir mecanicamente nas urnas".

Embora recomende aguardar as primeiras pesquisas realizadas após os confrontos, o diretor do Instituto Francês de Opinião Pública (Ifop), Frédéric Dabi, avalia que, "por pura lógica, isso poderia fortalecer" Le Pen no primeiro turno.

Uma pesquisa do instituto Elabe realizada antes dos confrontos coloca Le Pen na liderança, com entre 31% e 33,5% das intenções de voto, seguida pelo ex-primeiro-ministro de centro-direita Édouard Philippe, por Mélenchon e por Glucksmann, com percentuais entre 15% e 16,5%.

Segundo a mesma pesquisa, Le Pen venceria qualquer um dos três em um eventual segundo turno.

Nesse contexto, integrantes do RN aproveitam para atacar o governo Macron, do qual Philippe fez parte, e especialmente Mélenchon, para consolidar uma disputa direta de olho na eleição presidencial.

H.Dierckx--JdB