Journal De Bruxelles - Espanha busca respostas para segunda tragédia ferroviária do ano

Espanha busca respostas para segunda tragédia ferroviária do ano
Espanha busca respostas para segunda tragédia ferroviária do ano / foto: Óscar del Pozo - AFP

Espanha busca respostas para segunda tragédia ferroviária do ano

Em luto nacional após a colisão de dois trens de alta velocidade na véspera, a Espanha continuava em estado de choque nesta quinta-feira (29), enquanto buscava explicações para a segunda grande tragédia ferroviária no país em menos de um ano.

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"Vou ficar até encontrarem meu irmão", afirmou à AFP Manuel San Emeterio, que procura Pepe, de 54 anos, passageiro de um dos trens acidentados.

"A incerteza é o mais difícil de suportar (...). Mas acho que há algo que a contrabalança, que é a esperança", acrescentou, em uma Casa Diocesana de Toledo, a cerca de 70 km do local do acidente, onde alguns familiares aguardam notícias de seus entes queridos.

Eles não têm notícias de seus familiares desde a manhã de quarta-feira, quando um trem da companhia estatal Renfe, que havia partido de Madri com destino a Sevilha, atingiu por trás outra composição, da empresa Iryo, que estava parada na via, cerca de 150 km ao sul da capital.

O balanço provisório do acidente segue em 69 mortos, segundo a Comissão de Investigação de Acidentes Ferroviários do Ministério dos Transportes. Além disso, cerca de 50 feridos continuam internados em diferentes hospitais.

Um dia depois do acidente, os serviços de emergência, auxiliados por dois enormes guindastes brancos e cães da Guarda Civil, continuavam procurando vítimas entre a massa de ferros retorcidos em que vários vagões se transformaram após a colisão ocorrida no município de Urda, no centro do país.

"Evidentemente, há uma investigação em andamento. Essa investigação deve determinar como e por que aconteceu esta catástrofe. Terão que ser estudadas medidas a serem adotadas para que isso não volte a acontecer", afirmou o rei da Espanha, Felipe VI, após visitar os feridos internados em um hospital de Toledo.

- 'Não deveria ter acontecido' -

Os corpos da maioria dos mortos chegavam ao necrotério da cidade, que não tem capacidade para tantos cadáveres. Por isso, a Unidade Militar de Emergências (UME) precisou montar um anexo improvisado em um terreno vazio, onde foram instaladas tendas e câmaras frigoríficas vermelhas para conservar os corpos, enquanto 25 médicos legistas trabalham nas identificações.

"Não há palavras para isso. Espero que seja a última vez que vejamos coisas assim", lamentou Hassna, uma moradora de Toledo, sobre o acidente.

"No século XXI, problemas informáticos e falhas de comunicação são inexplicáveis, isso não deveria ter acontecido", avaliou Carlos León, um aposentado de 65 anos, sobre as possíveis causas do acidente, ao pedir que o governo "tome medidas" para impedir que se repita.

Pouco antes, o chefe do Governo espanhol, Pedro Sánchez, havia reiterado seu compromisso de determinar as causas da colisão.

"Estamos trabalhando dia e noite não apenas para dar uma resposta aos familiares das vítimas, mas também para esclarecer até o último detalhe desta tragédia e, é claro, reforçar a segurança para que isto não volte a acontecer", afirmou após uma reunião do comitê de emergência.

- 'Respostas' -

A um mês das eleições gerais antecipadas de 29 de novembro, cresce a pressão sobre seu governo de esquerda, já muito questionado pela oposição após a colisão de dois trens de alta velocidade em janeiro, em Adamuz, que deixou 46 mortos.

"Os espanhóis precisam de respostas", disse Alberto Feijóo, líder do opositor Partido Popular (PP, direita). "As responsabilidades políticas não podem aguardar uma investigação."

Nesta quinta-feira, foi anunciado que Fátima Báñez, ministra do Trabalho nos governos do PP de Mariano Rajoy (2011-2018), está entre os mortos.

O ministro dos Transportes, Óscar Puente, descreveu ontem o acidente como "verdadeiramente inverossímil". Segundo ele, a sequência de acontecimentos teria começado com uma falha informática que afetou um trecho de cerca de 69 quilômetros, obrigando os seis trens que circulavam pela região a parar.

No entanto, segundo os primeiros indícios, pouco depois foi dada uma ordem "equivocada" pelo centro de controle em Madri para que o trem da Renfe retomasse a marcha em velocidade normal - contrariando os protocolos - enquanto o Iryo continuava parado, em circunstâncias que o ministro classificou como "inexplicáveis".

O principal sindicato de maquinistas (Semaf) fazia nesta quinta-feira uma greve "em defesa da segurança ferroviária", anunciada há vários dias e mantida apesar da tragédia de quarta-feira.

Segundo a Renfe, a convocação "teve um impacto importante na prestação dos serviços mínimos", uma vez que 26,6% dos trabalhadores afetados aderiram à greve. A rede de trens suburbanos da região de Madri foi a mais afetada, com o cancelamento de 81% de seus serviços.

S.Lambert--JdB