Journal De Bruxelles - Presidente interina diz governar Venezuela sem influência externa, apesar de Trump

Presidente interina diz governar Venezuela sem influência externa, apesar de Trump
Presidente interina diz governar Venezuela sem influência externa, apesar de Trump / foto: Federico Parra - AFP

Presidente interina diz governar Venezuela sem influência externa, apesar de Trump

A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, assegurou nesta terça-feira (6) que governa sem a influência de qualquer "agente externo", apesar da pressão exercida por Donald Trump desde o primeiro momento.

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Delcy Rodríguez foi vice-presidente de Nicolás Maduro até a captura do presidente deposto em uma surpreendente incursão militar dos Estados Unidos, que deixou dezenas de mortos, entre eles 55 militares cubanos e venezuelanos pertencentes à segurança do governante deposto.

Delcy tomou posse na segunda-feira, com o crucial reconhecimento das Forças Armadas e o apoio dos demais poderes públicos.

"Este é um povo que não se rende, somos um povo que não nos entregamos", disse a presidente interina durante uma reunião com a equipe econômica transmitida pela TV estatal.

"Estamos aqui governando junto com o povo. O governo da Venezuela governa em nosso país, mais ninguém. Não há agente externo que governe a Venezuela, é o governo da Venezuela", enfatizou.

Trump insiste que está "no comando" do país e sugeriu que foi decisão sua deixar Delcy Rodríguez no poder, sem considerar por ora entregar o governo à oposição liderada pela vencedora do prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado.

Trump advertiu a nova governante de que, se "não fizer a coisa certa, vai pagar um preço muito alto, provavelmente maior do que o de Maduro".

Delcy, por sua vez, enviou uma carta de tom cordial na qual defendeu uma relação equilibrada e respeitosa entre os dois países.

— "Prisioneiro de guerra" —

Maduro e a esposa, Cilia Flores, enfrentam agora a Justiça dos Estados Unidos, acusados de narcotráfico e outros crimes.

"É um sujeito violento e matou milhões de pessoas", disse Trump em uma conferência com parlamentares republicanos.

O Departamento de Justiça retirou a maioria das referências ao chamado Cartel dos Sóis na nova acusação contra Maduro, Flores, seu filho "Nicolasito", seu ministro do Interior e o chefe da temida quadrilha Tren de Aragua.

Parte da operação contra Maduro baseou-se na designação como terrorista dessa suposta organização narcotraficante, que agora foi definida como um "sistema de clientelismo", segundo reportaram jornais como El País e The New York Times.

Não está claro como essa mudança pode afetar o processo contra Maduro, que denunciou ser um "prisioneiro de guerra" ao se declarar não culpado.

"Sou um homem decente, continuo sendo o presidente do meu país", afirmou na audiência, antes de ser interrompido pelo juiz.

A presidente do México, Claudia Sheinbaum, pediu um "julgamento justo" para Maduro, enquanto as Nações Unidas consideraram que a operação que levou à sua captura "minou um princípio fundamental do direito internacional".

— "Reacomodação" —

Delcy não governa apenas sob enorme pressão dos Estados Unidos, mas também enfrenta o desafio de reorganizar o chavismo sem Maduro.

Um general da reserva que ocupou altos cargos nas Forças Armadas considerou que Delcy Rodríguez abrirá as portas do país para petroleiras e mineradoras americanas. Ele não descarta uma retomada das relações diplomáticas com Washington, rompidas em 2019.

E, em paralelo, "de maneira acessória", impulsionará "uma agenda política eleitoral", que inclua a libertação de políticos presos, acrescentou a fonte.

O governo interino tem duração máxima de 180 dias, após os quais o Executivo terá de convocar eleições.

"O objetivo principal é ganhar tempo para consolidar a reacomodação e aproveitar que as demandas e condições de Washington estão centradas na questão petrolífera, o que também levará certo tempo para se concretizar", disse o analista político Mariano de Alba.

Rodríguez nomeou um novo czar da economia, cargo que ela mesma ocupava. Mantém intacto o restante do gabinete de Maduro, com Diosdado Cabello no Ministério do Interior e Vladimir Padrino no da Defesa como figuras-chave.

"Delcy deveria dormir com um olho aberto agora mesmo", disse à AFP o ex-diplomata americano Brian Naranjo, que foi o número dois da embaixada de seu país na Venezuela entre 2014 e 2018, antes de ser expulso por Maduro.

"Atrás dela há dois homens que ficariam mais do que felizes em cortar sua garganta e assumir o controle", acrescentou, em referência a Cabello e Padrino.

De Alba estimou, no entanto, que "apesar das diferenças internas, o chavismo tem bem internalizado que apenas em uma coesão aparente tem chance de se perpetuar no poder".

— "Mulher revolucionária" —

O chavismo realizou nesta terça-feira uma "marcha de mulheres" para pedir a libertação de Maduro e Flores. O movimento convocou manifestações diárias desde sábado.

Milhares de apoiadores participaram dos protestos. Cabello caminhou com a multidão por uma importante avenida de Caracas.

"Nós estamos dispostos a ir até onde for preciso para defender nosso presidente Nicolás Maduro e nossa primeira-dama", disse à AFP Sara Rodríguez. "Estamos aqui dispostos a defender isso até que Maduro volte."

"A mulher que está representando agora, que assumiu a presidência interina, é uma mulher revolucionária, é o máximo, é uma mulher de confiança", afirmou, por sua vez, Sara Fernández, de 70 anos.

Na segunda-feira, em meio à instalação do Parlamento e à posse, 14 jornalistas foram detidos em Caracas. Quase todos pertenciam a veículos internacionais. Outros dois foram retidos na fronteira com a Colômbia, segundo o sindicato da imprensa, que informou que todos foram libertados.

Outro correspondente foi deportado a partir do aeroporto que atende Caracas.

A repressão política não pode ser tolerada na Venezuela, declarou nesta terça-feira o secretário-geral da OEA, Albert Ramdin, em uma sessão extraordinária da Organização dos Estados Americanos.

A.Martin--JdB